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domingo, 27 de julho de 2008

Serendipity

Depois do último artigo, recebi algumas críticas em relação ao fato de os exemplos de black swans terem sido um tanto quanto negativos. Não existem, perguntaram, surpresas positivas? Claro que sim, muitas! E tal qual os cisnes, estão em diversos aspectos da nossa vida, em diferentes ambientes, sob vários disfarces. Algumas delas precisam, inclusive, de um empurrãozinho.

Essa é a essência da estranha palavra do título: serendipity (na falta de uma tradução equivalente – seria serendipidade? – vai em inglês mesmo). A origem do termo remonta ao  séc. XVIII quando Horace Walpole descreveu, em carta a um amigo, um conto de fadas persa sobre as aventuras de três príncipes que faziam descobertas ao acaso enquanto viajavam pela região de Serendip (antigo Ceilão, atual Sri Lanka). Descobriram, por exemplo, que pela estrada por onde caminhavam havia passado uma mula caolha (pois a grama na beira da estrada estava comida apenas do lado que ela enxergava, apesar de no outro ser mais vistosa e abundante), manca (já que seu rastro era falho) e com alguns dentes faltando (o corte ficou irregular).

De lá para cá, serendipity tem sido usado para descrever aquelas descobertas feitas ao acaso, como que sem querer. Recentemente li uma inspiradora coletânea desses casos em Happy accidents: serendipity in modern medical breakthroughs, de Morton Meyers (Arcade Publishing Inc., 2007). Com um enfoque nos avanços da medicina (o autor é médico), o livro descreve os fortuitos acontecimentos que desencadearam as mais espetaculares revoluções no tratamento das doenças. Passando por áreas tão distintas quanto cardiologia, infectologia, oncologia e psiquiatria, Meyers relata como o acaso possibilitou salvar milhões de vidas e aliviar o sofrimento de outras tantas.

Conta, por exemplo, como dois cientistas alemães descobriram as propriedades elétricas do coração, ao dissecar rãs e deixar, acidentalmente, sobre o coração pulsante de uma, os nervos da pata de outra, provocando nesta movimentos involuntários conforme o ritmo cardíaco daquela. Ou como soldados atacados com gás mostarda na Segunda Guerra experimentavam drásticas reduções em tumores malignos, desencadeando os estudos das primeiras drogas oncológicas realmente efetivas.

Ou ainda, como John Cade, um desconhecido psiquiatra australiano perseguiu sua crença de que pacientes maníacos excretavam ácido úrico altamente concentrado. Ao testar sua hipótese, Cade encontrou problemas de solubilidade com suas amostras e a alternativa encontrada, o urato de lítio, revelou uma das maiores revoluções na psiquiatria moderna. Até hoje, mais de cinqüenta anos depois, o lítio permanece como um dos principais tratamentos para pacientes com mania grave, graças aos inesperadamente calmos porquinhos da índia observados pelo Dr. Cade.

Mas talvez nenhuma outra descoberta científica ao acaso seja tão celebrada quanto a penicilina (não vou entrar no mérito do Viagra, que era pesquisado para ser um anti-hipertensivo). Uma seqüência de ocorrências improváveis levou esporos de fungo do laboratório no andar de baixo (que pesquisava agentes causadores de asma) até o local onde o bacteriologista escocês Alexander Fleming cultivava seus famosos staphylococcus.

Ocorre que, sete anos antes, Fleming descobrira as propriedades antissépticas da lisozima (uma substância presente na lágrima, na saliva e no muco) quando, durante uma gripe, seu nariz escorreu sobre uma cultura de bactérias. Mais do que sugerir que Fleming era um desastrado, esses eventos serviram para condicionar sua mente a procurar explicações para fatos aparentemente corriqueiros e sem relevância. Ensinaram-lhe a buscar a pergunta que se encaixava à resposta que ele havia acabado de encontrar. Algo que os que flutuaram em suas banheiras antes de Arquimedes, ou viram maçãs caírem de árvores antes de Newton não aprenderam.

Ainda que a simples identificação do fungo não tenha levado ao imediato desenvolvimento da forma final da penicilina – o que só ocorreu mais de uma década depois e pelas mãos de outros pesquisadores – Fleming iniciou uma revolução numa área aparentemente banal para nós hoje. Mas basta mencionar que cerca de metade dos soldados mortos na Primeira Guerra Mundial não morreram em virtude de tiros nem explosões, mas por causa de infecções – muitas vezes causadas por ferimentos leves.

Diversas listas de descobertas acidentais freqüentemente incluem a anestesia, o celofane, dinamite, nylon (que por sinal são as iniciais das capitais da moda quando da sua descoberta: NY e Londres), PVC, vacina de sarampo, aço inoxidável, Teflon, raios-X, forno de microondas e outros. Mas como tantos acidentes assim acontecem dentro dos ambientes que deveriam primar pela organização, precisão e previsibilidade?

A verdade é que a lista é, provavelmente, muito maior do que os próprios cientistas querem que acreditemos. No provocante ensaio Accidental Innovation (Harvard Business School working paper 06-206, 2006), Austin, Devin e Sullivan argumentam que muitos pesquisadores preferem omitir o papel desempenhado pela sorte em seus trabalhos, temendo que isso possa diminuir ou desmerecer seus resultados.

Os autores foram mais além e pesquisaram as histórias por trás das descobertas que levaram aos Prêmios Nobel de Medicina e Fisiologia, no período entre 1980 e 2005. Nada menos do que 13 em 27 (48%) incluem algum tipo de sorte em suas narrativas.

Mas se serendipity é algo assim tão bom – por contribuir para a inovação – por que temos a impressão que nossos assépticos laboratórios tentam negá-la, baní-la, em vez de fomentá-la? A primeira parte da pergunta foi mencionada uns parágrafos atrás, especulando em torno do receio de que o público leigo atribua o trabalho de uma vida à mera sorte. O Dr. Stoskopf responde com outra pergunta: “Será que o peso cada vez maior dos controles externos na experimentação e exploração científicas não diminuem o benefício potencial da ciência, ao limitar as oportunidades para as descobertas ao acaso?” (Observation and Cogitation: How serendipity provides the building blocks of scientific discovery – ILAR Journal, Vol 46, Núm 4, 2005).

Mas a segunda parte... bem, como se precipita a sorte? De que forma se alimenta o acaso? É possível favorecer um acidente? Como se subverte tão descaradamente o método científico? Como os três príncipes testariam a hipótese de que a mula era manca?

A pasteurização do raciocínio – não só no ambiente científico, mas também no acadêmico e empresarial – pode limitar nossas chances de criar coisas realmente novas. Indução e dedução contribuem para expandir o conhecimento existente, mas não constroem conceitos verdadeiramente inéditos. Novas idéias precisam de um quê de irracionalidade, acaso, criatividade e – especialmente – uma apuradíssima capacidade de observação. Envolve, freqüentemente, ver o que todos vêem, mas pensar o que ninguém pensa.

Estimula-se serendipity, pois, quando se desprende a mente do pesquisador – ou do administrador, empreendedor – das convenções, das regras e das idéias pré-estabelecidas. Para criar e inovar é preciso um observador neutro, treinado para apreciar eventos inéditos sem viéses pré-concebidos sobre o que deveria acontecer. É preciso ver as coisas com a mesma curiosidade como se fosse a primeira vez.

Todos conhecemos a sensação de déjà vu, um forte sentimento de que já experimentamos algo anteriormente, mesmo que isso não tenha acontecido. Vujà dé é exatamente o oposto: a sensação de ver algo pela primeira vez, mesmo que já tenhamos visto inúmeras vezes. E com esses novos olhos devemos buscar o que não se encaixa ou o que se encaixa bem demais, o que se parece com outras coisas ou o que não se parece com nada.

Desse olhar descompromissado, dessa curiosidade aleatória, da capacidade de unir o que parece incompatível e da criatividade incomum surgem os avanços mais surpreendentes, as inovações mais improváveis. Desses hábitos, mais eficazes que os outros sete – ou oito – constrói-se serendipity, a sagacidade acidental.

Está prestando atenção?

Por Rodolfo Araújo

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"Envolve, freqüentemente, ver o que todos vêem, mas pensar o que ninguém pensa."

Back in 2003, lembro-me do meu primeiro semestre de aulas na faculdade. Sabe aquelas matérias genéricas, que muitas vezes são pré-julgadas de forma errada (pra que serve isso?). Então, recordei-me agora de um conceito ministrado na aula de Sociologia I: Flâneur.

The term flâneur (or jetter) comes from the French verb flâner, which means "to stroll". A flâneur is thus a person who walks the city in order to experience it. - Wikpedia

Se meu professor estivesse aqui para completar, diria algo muito próximo de: não apenas experimentar, mas ver o que não se vê, e devolver algo novo (visão, proposta) à sociedade.

Pelo menos lá em casa, desde que me lembro por gente, recordo-me do meu pai exercitando isto em nós. "Poxa filho, que negócio será que está faltando neste bairro e que poderíamos montar?".

Fica aí a excelente sugestão do autor, que em meu ponto de vista, deve ser um constante exercício: "Novas idéias precisam de um quê de irracionalidade, acaso, criatividade e – especialmente – uma apuradíssima capacidade de observação.Envolve, freqüentemente, ver o que todos vêem, mas pensar o que ninguém pensa."

Abs Rodolfo! Keep up the good work!

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